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Olá, pessoal! Nossa! Acho que dessa vez bati o meu recorde. Escrevi demais... o texto ficou muito grande. Haja paciência pra ler! Acho até que depois dessa vou ficar uns dois meses sem postar. Mas esse post é só um esboço de um artigo que quero escrever sobre um gênero musical muito comentado e controverso. Fique à vontade para comentar e dar a sua opinião. Segue abaixo em duas partes. Um abraço!!!
A Simbologia do “Funk” Carioca
Primeiro a explicação para o fato de eu ter escrito funk entre aspas. Na verdade, esse estilo musical denominado por aqui como funk não é o funk verdadeiro. O funk de verdade é originário dos guetos norte-americanos e usa bases sólidas de instrumentos musicais com excelentes grooves de baixo. Os cantores, em geral, são excelentes. Possuem vozes firmes e vibrantes. Que o diga James Brown e Tim Maia. Nada a ver com essa colagem de ritmos repetitivos e pobres em musicalidade que se ouve por aqui. O nome mais correto para esse estilo é Miami bass, que também nasceu nos EUA.
Mas o interesse principal do presente texto não é o de avaliar as questões técnicas que envolvem o estilo exposto. A idéia é fazer uma breve relação entre ele e a realidade em que vivemos e tentar desvendar o porquê do seu grande sucesso.
Antes de começar, gostaria de frisar que muitos argumentam que os críticos desse estilo musical são preconceituosos, ou seja, não gostam porque é um ritmo que surgiu nas favelas e periferias do nosso Rio de Janeiro. Pode ser que haja um fundo de verdade, mas temos que ter cuidado com essa forma radical de análise, senão a argumentação dos defensores do “funk” pode ficar empobrecida. Mas deixa isso pra lá por enquanto. Também não vou me prender a essa discussão.
Vamos ao fato: a música é um direito universal. Isso mesmo! Qualquer povo, grupo ou nação tem o direito de se expressar e extravasar suas emoções através da música. O ser humano é em si um ser musical. E, geralmente, os diferentes grupos expressam essa musicalidade de acordo com a realidade em que vivem. A música funciona como um complemento aos seus discursos, às suas visões de mundo, aos seus cotidianos, etc. É como se cantássemos aquilo que vivemos. Então eis a questão: Se Frank Sinatra pôde cantar apaixonadamente sobre as belezas de Nova Iorque, se Tom Jobim e Vinícius de Moraes puderam cantar a beleza das moças que passavam por Ipanema e se Renato Russo podia cantar o cotidiano burguês de Brasília, porque os moradores das comunidades carentes não podem cantar seus contextos de vida? Os direitos têm que ser iguais para todos.
Escrito por Carlos Turque às 23h04
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Mas muitos contestam esses direitos. Argumentam que, além da pobreza musical, o “funk” costuma ter letras que incentivam a violência, a promiscuidade, o uso e o tráfico de drogas. De fato isso acontece. As letras não mencionam esses problemas de forma crítica, mas simplesmente transformam isso tudo em glamour e status. Ora, então se a música é a expressão da realidade de um povo, podemos concluir que os funkeiros cantam uma realidade de um povo que é decante. Cantam a falta de perspectivas, cantam o poder paralelo, cantam o mundinho bonitinho, mas ordinário da rede globo, cantam o prazer gratuito e barato do sexo, enfim cantam seus cotidianos do “nos viramos como podemos”.
Muitos vão me rebater dizendo que eu estou sendo reducionista, pois supostamente eu estaria ignorando que o “funk” é uma manifestação cultural como qualquer outra. Ok, mas eu contra-argumento que toda as manifestações culturais nascem de uma realidade específica. Elas não surgem do nada. E o “funk” carioca surge sinalizando a pobreza de sonhos e de projetos na vida dos jovens de comunidades carentes. E eles batem mesmo na cara da sociedade com suas palavras chulas e cheias de erros de português. O que significa tudo isso? Significa que a música é apenas uma denuncia indireta de todo o descaso com o ser humano. Quando o funkeiro canta fazendo apologia às drogas, por exemplo, é como se dissesse inconscientemente assim: “Olhem, vejam o que me tornei!” ou então: “não tive uma família descente, não tive oportunidades, não fui amado e valorizado como merece todo ser humano, então estou me virando como posso! Não tenho nada a perder”. Aqui, vou aproveitar para ser ainda mais ousado. Vou me arriscar a dizer que se não houvesse desestruturações familiares e sociais não existiria o “funk” carioca.
Outros agora vão me rebater: “Mas peraí, hoje em dia o “funk” não está limitado só às favelas. Tem muito mauricinho e patricinha consumindo esse estilo musical”. Perfeito. Inclusive qualquer um pode comprovar isso. Outro dia mesmo passei em frente a um baile funk meio elitista, desses voltados para pessoas de classe média e vi que a maioria que estava na fila era composta por pessoas com aparência de bem cuidadas. O que explica isso? As pessoas que gostam do “funk” e tem certo grau de esclarecimento dizem que não ligam paras as letras, apenas gostam de curtir o ritmo pra dançar e se divertir. Em parte pode ser verdade, mas se pensarmos bem têm coisas que não são possíveis dividir. Como posso falar que gosto do sono, mas não gosto de dormir ou então que gosto de sentir fome, mas não gosto de comer? Têm coisas que são indissociáveis. E a música é uma delas. Letra e ritmo se complementam. Muitas vezes, as próprias pessoas que fazem essas argumentações são preconceituosas. Isso porque, na maioria dos caso, elas não estão preocupadas com o que as pessoas das comunidades estão cantando ou indiretamente denunciando, pois só querem se divertir.
Voltando à questão: o que explica o fato de pessoas que vivem realidades bem diferentes daquelas das comunidades carentes gostarem e consumirem esse estilo musical caracterizado por mim como reflexo da falta de perspectivas? Respondo com a verdade óbvia de que não é só nas comunidades carentes que há falta de perspectivas. Mesmo em famílias de classe média e classe alta existe uma grande falta de perspectivas, pois a falta de perspectivas não está necessariamente ligada à falta de grana. Chego então a um ponto que eu queria: O “funk” carioca surge não apenas como reflexo da pobreza, mas também como reflexo da total desestruturação social e inversão de valores em que vivemos. E tal estilo musical é apenas mais um canal que extravasa e demonstra que as coisas estão longe de estarem bem. Que estamos muito distante do mundinho cor-de-rosa do big brother e das novelinhas. Então o que fazer? Demonizar o funk e tentar excluí-lo da sociedade? Claro que não! Até porque isso não seria possível. Acredito que na medida em que as autoridades e a sociedade em geral passassem a ser menos egoísta e imediatista e investissem nos jovens, naturalmente o teor das letras do “funk” mudaria. Se os jovens fossem incentivados e levados a sério teríamos talvez letras mostrando perspectivas e críticas às formas de dominação...
Bem, acho melhor parar por aqui porque já estou cansado e porque não quero ficar sempre terminando os meus textos com um final visionário e sensacional. Por hoje é só! “É nóis na fita!”
- Ressalva importante: quando eu escrevo que o “funk” carioca expressa, com suas letras de baixa qualidade, apologias ao crime, à violência e a promiscuidade não estou generalizando. É fato que a maioria dos que vivem em comunidades carentes são cidadãos que, apesar das dificuldades, conservam sua integridade e não comungam com práticas criminosas.
- Segunda ressalva importante: Não são todas as letras de “funk” que incentivam maus hábitos sociais. Existem até umas poucas que fazem críticas sociais. Mas grande parte das que fazem mais sucesso é de péssima qualidade e incentiva a violência, a promiscuidade e o uso e tráfico de drogas.
Escrito por Carlos Turque às 23h03
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